SOBRE GÊNIOS E LOUCOS

 

A crença de que genialidade e loucura caminham juntas vem desde a antiguidade, onde se acreditava ser um dom divino. A idéia romântica de todo artista ter sua porção de loucura, vindo daí a sua fonte de inspiração, foi reforçada por uma lista imensa de artistas geniais, que apresentavam algum tipo de comprometimento emocional em sua época (alguns muito severos), como os pintores Van Gogh, Paul Gauguin, Pablo Picasso, Eduard Munch (que inclusive, se recusava em se tratar com medo de perder a sua fonte de inspiração); os compositores Tchaikovsky, Mozart, Beethoven; os escritores James Joyce, Virginia Woolf; os poetas Lord Byron, Maiakovsky…

As pessoas acometidas de transtorno mental têm dificuldade em conviver com o inevitável dentro de si, vêem a realidade de uma forma diferente das outras pessoas tidas como “normais” e utilizam a arte como forma criativa de expressar simbólica e intensamente seu estado de alma, mas, na verdade, a loucura não faz de ninguém um artista.

INSTABILIDADE x CRIATIVIDADE

Muitas pesquisas foram feitas com o objetivo de verificar a suposta ligação entre genialidade e loucura, em que foi constatada a conexão entre instabilidade psíquica e potencial criativo. Mas, como um transtorno mental, que representa uma desordem interior, pode melhorar a criatividade de alguém? Nesse aspecto, as pesquisas apontam conclusões diferentes entre si com relação aos motivos dessa criatividade exacerbada, mas eles não são excludentes. As pessoas com transtornos mentais encontram respostas incomuns para a solução de problemas, por associarem coisas que pareciam não ter a mínima conexão. Expressam idéias não convencionais pois se sentem livres das inibições e controles internos o que torna o seu pensamento mais rápido e flexível. Estas pessoas têm uma capacidade absurda de se desligarem do mundo externo e de se concentrarem no que estão fazendo e facilmente estabelecem vínculos entre os opostos: o racional e o irracional; o conhecido e o desconhecido… É com essa tamanha intensidade que acabam por expressar a sua genialidade…

Mesmo com os achados da ciência, diante da complexidade da questão, essa é uma área que carece, ainda, de muita investigação.

EXPRESSÃO DO INCONSCIENTE

É provável que a sensibilidade do artista o torne mais vulnerável às dores e mazelas do mundo, tornando-o mais suscetível a desenvolver um transtorno mental. Michael Jackson é um exemplo bem recente de um artista genial, com uma alma amargurada e doentia.

É certo que a maioria dos doentes psiquiátricos não possuem dons artísticos, assim como a maioria dos artistas reconhecidos não são portadores de distúrbios mentais (pra mim, o Chico Buarque continua sendo o ícone maior de genialidade e lucidez). É certo também que, no Brasil, graças ao trabalho revolucionário da psiquiatra Nise da Silveira (1905-1999) as técnicas agressivas anteriormente utilizadas nos tratamentos psiquiátricos vêm sendo substituídas pela arteterapia (oficinas de pintura, modelagem…) que têm se mostrado muito eficaz na reabilitação dos doentes, possibilitando-os reatarem seus vínculos com a realidade através da expressão artística.

Expressar o inconsciente através das artes tem servido para amenizar a dor, estabelecer uma nova forma de comunicação com o mundo e possibilitar, que os doentes percebam a beleza que não encontravam na realidade de suas vidas.

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