“O JEITINHO BRASILEIRO”

 

Quando Pero Vaz de Caminha escreveu a histórica carta ao rei D.Manoel relatando o achamento da Ilha de Vera Cruz, tinha o objetivo de relatar o descobrimento e descrever os primeiros contatos com os índios. O que fica claro através de um trecho da carta – “… e suas vergonhas tão nuas, e com tanta inocência assim descobertas, que não havia nisso desvergonha nenhuma”- é que os portugueses perceberam de pronto que os índios viviam  livres a ponto de andarem nus, o que possivelmente os levou a crer  que essa  inocente liberdade era muito permissiva e, sendo assim,  tudo poderia acontecer e que não haveria barreiras e nem limites para nada. E nesse primeiro contato já aproveitaram para fazer um escambo (troca direta) com eles.

E por falar em aproveitaram, o escrivão Caminha se aproveitou do fato de escrever uma carta ao rei D. Manoel e no final da missiva apela para que o Rei liberte do cárcere o seu genro, preso por assalto e agressão, realizando talvez o primeiro caso de nepotismo ocorrido em terras brasileiras. Inocência, escambo, nepotismo, oportunismo, transgressão… tudo acontecendo nos primeiros contatos, e isso quando os degredados (condenados ao exílio) portugueses ainda nem haviam se estabelecido em terras brasileiras para começar nossa colonização. Parece que isso acabou virando um vaticínio, pois, com o passar dos anos, o brasileiro vem se tornando um transgressor – sabe o que é certo e o que é errado, tem conhecimento das leis, mas sempre que consegue e pode, as transgride.

LEI DE GERSON

Esse mau hábito, essa malandragem que mobiliza as pessoas para transgressão, de tão frequente, vem se tornando natural a ponto do Gerson, um conhecido jogador de futebol, anos atrás, ter feito uma propaganda na televisão em que dizia que “O IMPORTANTE É LEVAR VANTAGEM EM TUDO”, daí cunhou-se a expressão Lei de Gérson para designar essa mania das pessoas sempre terem que se dar bem, não importando se, para isso acontecer, vão ter que mentir, subornar, transgredir… ou até mesmo prejudicar os outros. E assim, oficializou-se o “jeitinho brasileiro”, a conduta desviante que desconhece e desrespeita os limites éticos e morais em nome do prazer e dos benefícios pessoais.

Observando-se a cultura e funcionamento do povo brasileiro percebe-se uma crescente identificação com a falta de limites e um compromisso com o sucesso a qualquer custo. O pensamento de que o mundo é dos espertos está virando premissa de conduta e sendo incorporada na cultura do nosso povo, assim como a crença de que o dinheiro garante e estabelece um funcionamento desviante, livre de sanções e punições. Ao longo dos anos estamos nos tornando pessoas sem limites e aceitando o fato de que se todo mundo faz, eu também posso fazer.

MUDANDO CONDUTAS

É na infância que começamos a aprender e respeitar valores e normas. Educar com limites, estabelecer regras de funcionamento em casa e na vida precisa ser um compromisso dos pais com relação a seus filhos. As crianças que não foram acostumadas a esperar, pois tiveram seus desejos atendidos de pronto, que não cumpriam ordens, não obedeciam à autoridade dos pais, não respeitavam limites e, mais do que isso, cresceram presenciando em casa condutas pouco adequadas e éticas, são as mais propensas a querer tirar vantagem em tudo e ganhar de todos.

Quem acredita que o “jeitinho brasileiro” é capaz de resolver todas as situações, não pensa nas consequências e nem teme punições. É sempre bom e necessário refletir que ao transgredir as regras a pessoa terá que lidar com as consequências da sua conduta e que, dependendo da gravidade do fato acontecido, as sanções estabelecidas podem ser severas. Ser ético, respeitar valores e ser cuidadoso com os outros é o que nos garante ser incluídos e acolhidos pelas pessoas a nossa volta e também contribui na formação de um mundo mais justo e ético.

 

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