NÃO ACHE GRAÇA!

 

Se em algum momento da sua vida você se deparar com alguém que apresente alguns movimentos e gestos que lhe pareçam muito estranhos e bizarros como: piscar o tempo todo, fazer movimentos bruscos com a cabeça, entortar a boca, girar os olhos, fazer caretas, emitir sons, sacudir os braços, tossir, pigarrear, ranger continuamente os dentes, repetir palavras e frases ditas pelos outros ou, o que é mais raro, proferir expressões obscenas e ofensivas, e isso acontecer de forma repetitiva, como se a pessoa estivesse ligada no automático e não conseguisse deixar de fazer tais condutas, por favor, não ache graça e nem tripudie, pois a pessoa realmente não tem controle sobre suas condutas e atos.

Esses sintomas são característicos da Síndrome de Tourette (numa referência ao neurologista francês Georges Gilles de La Tourette, que descreveu a doença pela primeira vez em 1885), um transtorno neuropsiquiátrico caracterizado por tiques múltiplos, motores e verbais e normalmente se manifesta na infância. E, como esses movimentos ocorrem de forma exagerada, são incomuns e repetitivos, não tem como não chamar a atenção dos outros; agora, lançar olhares condenatórios, fazer comentários maldosos e dar risadas já passa a ser crueldade com alguém que vive uma angústia absurda por não conseguir controlar o próprio corpo.

“DONOS DE SI MESMOS”

Os sintomas da síndrome podem se manifestar em qualquer parte do corpo, mas ocorrem preferencialmente no rosto e na cabeça, o que os torna muito visíveis. A gravidade dos tiques tende a diminuir à medida que a pessoa ultrapassa a adolescência e entra na fase adulta (imagine um adolescente passando por tudo isso!); mas os prejuízos causados pelo transtorno são imensos, pois como os tiques ocorrem de forma involuntária, a pessoa não tem controle e, sendo assim, não se sente “dona de si mesma” – esta é uma fala de  uma pessoa acometida pela síndrome.

As causas do transtorno ainda são desconhecidas, mas acredita-se que fatores genéticos e ambientais são importantes na etiologia da doença. Infelizmente, a Síndrome de Tourette deixou de ser considerada uma condição rara, provavelmente por conta disso as pesquisas sobre o assunto têm se tornado constante, mas ainda há muito a se descobrir sobre ela, contudo, já se sabe: que não afeta a inteligência; que a frequência e intensidade dos sintomas variam de pessoa para pessoa; que pioram com o estresse; que podem estar associadas a outras doenças como o Transtorno Obsessivo Compulsivo, Distúrbios do Sono, Ansiedade e Depressão…

ANGÚSTIA EXISTENCIAL

As pessoas acometidas pela Síndrome de Tourette são vítimas constantes de preconceito e percebem claramente que são alvo de comentários, piadas e até de imitação – o que faz com que a tensão interna fique tão grande e o comportamento indesejado aumente em frequência e intensidade. Além da angústia absurda de não ter controle sobre o seu próprio corpo, vivem a tristeza constante de serem estigmatizadas e terem que conviver com a fobia ao diferente. Diante de tantas circunstâncias desagradáveis do cotidiano, torna-se comum elas se isolarem, pois fugir do convívio social termina sendo uma forma de proteção, o que só faz piorar a autoestima delas.

O fato é que a Síndrome de Tourette costuma causar prejuízos significativos na vida ocupacional e social do paciente. Nos casos mais graves, quando os sintomas são muito intensos, as pessoas não conseguem permanecer no trabalho e terminam sendo aposentadas precocemente, não lhes restando alternativa a não ser conviver com mais uma consequência extremamente desagradável imposta pela doença.

Então, meu objetivo com esse artigo é o de dividir com vocês informações básicas sobre o assunto e assim tentar diminuir o preconceito. Quem sabe, um dia você pode se encontrar (se é que isso já não aconteceu) com alguém acometido pela doença e vai compreender melhor o que está acontecendo. Quem entende, não zomba e nem hostiliza, acolhe!

 

 

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