LEMBRANÇAS QUE FICAM

                Nós convivemos todos os dias com os perigos presentes nas ruas, nas esquinas e nem mesmo dentro de nossas casas estamos absolutamente protegidos e salvos. Infelizmente, muitos de nós não conseguem escapar e se tornam vítimas da violência, em todas as suas formas, que cresce a cada dia e de um modo cada vez mais grave e cruel – não basta só assaltar, tem que ferir, estuprar, matar – e assim um nada vira motivo para tudo. Quem já foi vítima de estupro, sequestro, assalto violento, acidente grave de trânsito (principalmente se tiver havido morte), testemunha de suicídio ou morte violenta de outros… provavelmente vai viver assombrado, durante certo tempo, pelas lembranças dolorosas e traumáticas dessas experiências que lhe tiram o sono, roubam a paz e atrapalham o curso da sua vida.

Esse estado de estresse que surge como uma resposta tardia a um evento de natureza muito ameaçadora ou catastrófica – Transtorno de Estresse Pós-Traumático – costuma causar muita angústia, dor e sofrimento, especialmente em pessoas muito ansiosas, compulsivas ou com história prévia de outros eventos traumáticos. As vítimas da violência frequentemente recordam e revivem de forma repetitiva, constante e intrusa o evento acontecido, em memórias, imaginação diurna ou sonhos.

AS MARCAS DA VIOLÊNCIA

A violência sempre deixa marcas, às vezes cicatrizes, que podem levar muito tempo para curar.   Se o trauma for grande, a pessoa deve buscar ajuda especializada, pois com o tratamento médico e psicológico a recuperação pode ser esperada na maioria dos casos. Sintomas como apresentar distúrbios digestivos, dores crônicas de origem desconhecida, insônia, cansaço, fadiga, ficar super atento a barulhos e movimentos, conviver com a sensação de que tudo vai acontecer de novo e a qualquer momento, evitar estímulos que possam provocar recordações do trauma, ansiedade, medo, angústia, isolamento social merecem ser olhados com muita atenção, pois podem ser indicadores de Transtorno de Estresse Pós-Traumático.

Nós não temos o controle sobre nossas lembranças e muito menos sobre as circunstâncias da vida, sejam elas agradáveis ou desagradáveis. O que nós podemos e devemos fazer é aumentar nossos cuidados com relação às questões de segurança, selecionar os locais que frequentamos, as ruas que andamos, os horários em que transitamos, andar com as portas do carro travadas e com os vidros fechados, não ficar conversando com o carro parado, não falar no celular na rua…  Essas coisas que já sabemos e às vezes esquecemos de fazer. Todos esses cuidados contribuem em muito para diminuir o risco da violência, mas não impede que ela aconteça.

ESTRESSE PÓS-TRAUMÁTICO

A qualidade e a intensidade das nossas lembranças é uma ação do nosso cérebro; é ele quem analisa e decide o que vai ser lembrado e o que vai ser deletado de nossas memórias, quais vão ser as nossas melhores e piores lembranças. Essa decisão cerebral não ocorre, necessariamente, por um mecanismo de repetição, ou seja, não é preciso viver várias vezes uma determinada situação para que ela seja armazenada para sempre ou por muito tempo em nossa memória; uma única experiência ruim pode consolidar o medo ou uma única vivência boa pode ficar associada ao prazer.

Em qualquer circunstância, mais importante do que o que acontece na nossa vida é a forma como lidamos com o que acontece. As lembranças fazem parte da história de cada um de nós e representam algo que realmente nos pertencem, ninguém consegue acessar nossos pensamentos. Nós somos livres para pensar o que quisermos, mas não somos sempre livres para lembrar. Pensamentos e recordações tem um efeito muito grande sobre nossos afetos e determinam nossas atitudes. Assim, vale a pena sempre contextualizar as situações no tempo e no espaço e, principalmente, focar no fato de que se a situação estressante não existe mais, o que restou são as consequências dela. Vamos nos cuidar!

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