EU NÃO SOU ASSIM DE PROPÓSITO!

 

No consultório, com frequência, eu recebo pessoas com dificuldades no relacionamento com seus parceiros amorosos, sendo que a queixa principal é o desinteresse dele(a) na vida do casal e que ele(a) parece que vive no mundo da lua e não faz nada direito. As situações se repetem: se esquecem ou chegam atrasados nos compromissos previamente combinados, prometem as coisas e não cumprem, são desorganizados com tudo, vivem distraídos, reagem a tudo o que não gostam e de fazer, vivem as situações de uma forma muito intensas, no meio de uma conversa parece que se desligam, fazem observações fora de contexto e de hora, começam e não terminam as coisas e, com tudo isso, não tem como não viver brigando.

Nesse contexto, o outro se sente muito desconfortável e cansado principalmente pelo fato de não ser acreditado quando diz que tenta, porém não consegue ser diferente e que não é assim de propósito. Aliás, muito provavelmente, nada disso é surpresa pra ele, pois, desde criança, já vivia essa incompreensão quando era acusado pelos pais de que não se esforçava o bastante na realização das tarefas, que não prestava atenção porque queria se livrar logo das obrigações para ir brincar e que por isso era punido e a todo momento escutava que se não mudasse não seria nada na vida. Assim, como funcionar diferente na vida adulta quando se cresceu internalizando fracassos sucessivos e rotulações inadequadas?

ITENSOS DEMAIS

Essa dificuldade imensa de concentração e organização pode ocorrer em função de uma condição neurológica inata, o Distúrbio de Déficit de Atenção – DDA, um quadro que atinge mais meninos do que meninas (numa proporção de 3 para 1) e que até hoje não se sabe exatamente as causas, mas os maiores indícios são que ocorra por problemas genéticos, sendo que os fatores ambientais podem agravá-los.  Os portadores de DDA sentem muita dificuldade em organizar os pensamentos e transformá-los em ação e isso não tem nada a ver com falta de inteligência e criatividade, muito pelo contrário, a dificuldade é operacionalizar no mundo real o que eles sentem e vivem no seu mundo interno.

Na adolescência a coisa se complica um pouco mais em função de que, nessa fase, é difícil gostar de si mesmo, com DDA fica mais difícil ainda. Os danos causados à auto-estima são muito grandes. Por mais talentos que eles tenham, nem chegam a exercitá-los, pois desistem antes de concluir alguma coisa; além disso, os portadores de DDA não conseguem inibir os impulsos como os outros, eles se irritam muito facilmente e como não conseguem fazer uma pausa pra pensar antes de agir, eles agem por impulso sem pensar nas consequências.

GRANDES IDÉIAS E POUCAS REALIZAÇÕES

                Não é nada fácil para os portadores de DDA lidarem com tantas circunstâncias que os atropelam e os atordoam. Também não é nada fácil para os seus parceiros lidarem com alguém que tem um humor instável; é complicado se relacionar com uma pessoa que se envolve em vários projetos ao mesmo tempo e não consegue concluir nada, que se coloca em ações de risco, que adoraram estímulos fortes e novidades e que vivem em devaneios que dificultam a manutenção de vínculos afetivos… Com tantas inadequações eles costumam buscar alívio para os sintomas no álcool e nas drogas, que destroem a vida das pessoas, mas que para eles tem efeitos calmantes.

Caso você se relacione com alguém que se enquadre nesse perfil, em vez de criticá-lo, incentive-o a buscar auxílio especializado para que possa compreender toda a sua disfuncionalidade e consiga criar mecanismos  que o ajudem a sentir-se aceito e amado.

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