ALFABETIZAÇÃO PRECOCE: CUIDADO!

Desde cedo, as crianças  demonstram o desejo de aprender a fazer coisas, dentre elas a ler e a escrever (até fazem de conta que já sabem ler), obedecendo a um script do mundo contemporâneo, que é a valorização da escolaridade. Hoje, as crianças entram mais cedo na escola e aprendem com a vida a serem mais questionadoras, mais espertas, mais  curiosas, mais despachadas, mais independentes e mais precoces.

A precocidade no aprendizado pode provocar problemas no desenvolvimento infantil, pois é necessário que o cérebro da criança esteja pronto para que ela possa adquirir mais facilmente determinados conhecimentos. Além do que, como a escrita é composta por um sistema de símbolos complexos, é necessário que aspectos básicos como concentração, coordenação visual e motora, afetividade, sociabilidade e outras aptidões estejam presentes. A melhor maneira da criança aprender continua sendo o brincar, pois é através do lúdico que se dá a construção do conhecimento e onde ela vai adquirir bases para lidar com os símbolos da escrita. Devemos incentivá-las  a explorar o mundo a sua volta e a descobrir e revelar seus desejos e habilidades. Brincar é coisa séria!

RESPEITO AO RITMO DA CRIANÇA

Existe uma hora certa para que as crianças desenvolvam cada habilidade, pois os circuitos cerebrais responsáveis pelas diferentes funções não amadurecem ao mesmo tempo e nem de forma igual para todas as crianças. Forçar uma alfabetização precoce é interromper o processo de desenvolvimento da criança, pois o conhecimento vai muito além de se aprender números, letras e palavras. O ideal é que se respeite o tempo de maturação e o ritmo de cada criança.

Quando a criança convive com adultos que têm o hábito de leitura e valorizam a cultura, eles funcionam como modelo de imitação, o que faz com que elas também demonstrem interesse pelos livros. Incentivar, naturalmente, conversando com as crianças (quanto mais palavras ela ouve maior será sua expressividade lingüística, no futuro) e respondendo seus questionamentos só ajuda. Os pais devem dominar a sua ansiedade e deixar a criança viver a própria infância e não propor tarefas e metas que podem estar além da sua capacidade. Atender às demandas de interesse da criança deve passar pela triagem do bom senso. Não precisamos criar super filhos e nem devemos compará-los com os filhos dos outros.

OBEDECENDO OS PONTEIROS DO RELÓGIO PEDAGÓGICO

O desenvolvimento cognitivo da criança deve acontecer naturalmente, tendo como referência além da idade, o ambiente doméstico, sua história emocional, sociabilidade, maturidade… Ensinar uma criança com menos de 5 anos a ler e a escrever, sem que ela demonstre claramente interesse pode ser absurdamente desastroso. Não se deve queimar etapas, nem limitar precocidades e sim incentivar a partir das demandas da própria criança. Elas devem ser legitimadas e valorizadas no que demonstram ter de potencial a ser desenvolvido. Respeitar os ponteiros do relógio pedagógico, em que a prontidão para a alfabetização ocorre em torno dos 6 ou 7 anos, termina sendo um bom caminho.

Como pais, podemos e devemos incentivar a curiosidade das crianças, através de atividades como brincar com livros, contar histórias, desenhar, pintar, jogar, assistir filmes… Mas, nossa preocupação principal deve ser a de ensinar a nossos filhos valores como respeito ao próximo, solidariedade, liberdade, lealdade, amizade… para que eles possam pensar e “ler” a vida com os olhos do amor e da verdade.

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2 Responses so far.

  1. valquiria disse:

    Ler esse texto acalentou meu coração de professora de educação infantil nesse momento. Sinto-me aliviada! Leciono para uma turma de 28 crianças de 4 anos no município de Diadema, que esse ano adotou o material do SESI para a rede. Atendemos uma comunidade carente (como é a maioria na cidade), que, consequentemente, não é estimulada em casa para o exercício de ler e escrever, e mesmo assim, estamos sendo MUITO pressionadas a queimar as etapas de desenvolvimento, onde crianças que chegaram ainda sem noção de desenhar o próprio esquema corporal, estão sendo obrigadas a grafar letras e números! O livro pra minha turma tem exercício que pede que eles diferenciem nomes de meninos e meninas e façam duas listas com esses nomes escritos! Vão escrever como copistas? Pra que? A minha maior frustração é ver minhas colegas de trabalho, todas pedagogas, se matando (e massacrando as crianças)para que cumpram o que o livro dita. Gostaria que nos uníssemos para questionar o SESI sobre o porquê da urgência em alfabetizar nossas crianças, que estão claramente imaturas para a proposta que estão trazendo. Enfim… desculpe pelo desabafo, mas gostaria de te agradecer pelo texto acima. Vou pedir permissão para lê-lo na próxima reunião pedagógica. Obrigada

  2. Ana disse:

    Olá. Gostei muito do texto. Queria uma indicação de livro sobre o tema de criação de filhos pequenos, mas que falasse sobre os riscos de forçar a criança a aprender a ler e a fazer contas aos 2 anos, por exemplo. Obrigada.

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