A TERCEIRIZAÇÃO DA CULPA

 Acredito que a maioria das pessoas convive ou conhece alguém que está o tempo todo se queixando. Alguém que sofre muito, sente-se perseguido, incompreendido pela família e acha que ninguém o ajuda a carregar o seu imenso fardo. Como se o Universo conspirasse contra ela, tudo o que é de pior lhe acontece. Seus padecimentos são graves e constantes.  Nem Deus escapa de ser incluído em sua lista de perseguição e abandono. Seu sentimento é o de ser uma eterna vítima, de tudo e de todos. Essas são algumas das características da vitimização.

A cultura da vitimização está imbricada nas relações sociais. Afinal, ajudar os menos favorecidos é um gesto altruísta, valorizado socialmente e que incentiva a “vítima” a se manter nesse cômodo papel. Nele ela não tem responsabilidade ou obrigação com nada, já que a culpa  pelo que lhe acontece na vida é sempre dos outros. Ao terceirizar a culpa, ela vive  certo conforto psicológico, permanecendo na posição de vítima passiva do cosmo.

Em algum momento da vida podemos nos sentir vítimas de pessoas ou de situações de injustiça. Isso, porém, não nos faz adeptos do processo de  vitimização. A vítima é sempre uma pessoa real que sofreu maus-tratos, discriminação, preconceito, perseguição, bullying ou qualquer outro tipo de injustiça. Já aquele que acredita ser sempre vítima, foge da realidade, é uma pessoa que assumiu esse papel por não saber lidar com dificuldades, dor,  frustrações e pelo não atendimento de suas expectativas. Trata-se de alguém egoísta, sem empatia,  manipulador, que não possui uma escuta ativa, nunca acha que errou e  se beneficia da compaixão dos outros. Não consegue ser autor de sua própria história. Como não assume responsabilidade por nada e isso anula suas chances de crescimento. Em conversas, se uma pessoa relata algum problema ou sofrimento, com certeza, não haverá uma interlocução acolhedora, pois o sofrimento da pessoa que se sente vítima sempre será muito maior e pior do que o dela. A dor do outro é sempre dramática e cansativa.

   Conviver com alguém vitimista é  muito desgastante e, justamente por isso, muitas pessoas se afastam. É muito difícil estar com  alguém que fala só de si, de seus sofrimentos e dores e que tem sempre uma justificativa para os seus fracassos. Que está sempre dependendo das outras pessoas, umas para culpar e outras para serem seus protetores e aliados. Pessimista, não consegue fazer autocrítica, demonstra ausência de amor próprio e são hábeis em provocar a comiseração alheia.

Nem sempre a pessoa que mergulha no processo da “vitimização”  percebe o papel que está desempenhando. Como a manipulação é uma de suas habilidades,  isso pode não acontecer de forma clara, mas surgir de um mando disfarçado ou de uma insinuação. De qualquer forma, se você conseguiu identificar alguma pessoa ao ler esse texto,  cuidado para nela  não reforçar esse papel de vítima.

    Embora não seja fácil, tente conversar com a pessoa que se vitimiza de forma cuidadosa, trazendo dados de realidade, pontuando suas falas e mostrando o quando essa postura a deixa estagnada na vida. Sugira que ela busque uma ajuda terapêutica para poder sair da falsa zona de conforto da vitimização .

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